sábado, 26 de abril de 2008

Iruya

Vila magicamente situada entre infinitos desfiladeiros da Quebrada, e para lá se chegar, é necessário apanhar um colectivo em Humahuaca a cerca de 80km.
Essa distância é, contudo, percorrida em, no mínimo, três, longuissimas horas.
Porquê? inquirem vocês.
Porque se Deus, para quem acredita, ofereceu esta regiao ao Homem, em troca exigiu a sua alma, tal o número de vezes que se ouvem rezas durante incontáveis curvas a acariciar o vazio.
Ataques cardíacos e úlceras nervosas ocorrem aos milhoes, a mim e a outros, nestas estradas a 3000m de altitude.
Durante a viagem, o colectivo é preenchido por ameríndios super curiosos que se divertem ao ver as aterrorizadas caras de, auto-intitulados, corajosos habitantes de longínquas selvas urbanas.
A vila, vista de um mirador imediatamente acima parece uma favela do Rio, tal a profusao de casas, anarquicamente construídas com uma mistura de tijolo, pedras, canas e latao, serve de entreposto às comunidades que vivem pelos vales e montanhas em redor.
É inacreditável a sensaçao, indescritivel para simples mortais como eu, que o local transmite.
Para os endinheirados, em vez de irem a Fátima, Compostela ou Lourdes, ide antes a Iruya que, prometo, nao só vêm Deus como falam com ele.
Em San Isidro, a cerca de 4 horas de caminhada, durante a qual é necessário atravessar um rio várias vezes e, se o cuidado é pouco, ou a confiança exagerada, o mais provável é caminhar-se molhado, o que, dado o calor que se fazia sentir, nao soube nada mal, sente-se o peso da distância pois os seus serca de 400 habitantes nao possuiem electricidade e as noites sao passadas à luz da vela.
Na aldeia sente-se, também, a tristeza de pessoas que se sentem esquecidas e terao que se afastar, às vezes milhares de kms, de casa, em busca de oportunidades, que, num mundo perfeito,todos teriam mas neste, oportunidades, é um estranho conceito para um índio.
Por um dia, imagino a infância do meu pai numa aldeia dos trás-dos-montes das décadas de 50/60 enquanto descasco maças e pêssegos, alimento cavalos e burros, jogo à bola com crianças e graúdos, janto e ouço histórias de ancias à luz da vela.
Se imagino mal, peço desculpa mas ao menos, imagino-o feliz.

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