segunda-feira, 28 de abril de 2008

Paso Cerrado

Bem, como a passagem terrestre entre a Argentina e o Chile se encontra cerrada por causa da neve estou obrigado a passar mais um dia em Mendoza que apesar de bonita já nao possui muitos segredos.
o que fazer?

sábado, 26 de abril de 2008

Separaçao

E, ao fim de 8 semanas, a parceria franco-portuguesa chega ao fim.
Eu sigo de novo para Mendoza, o Flo para as Cataratas de Iguazu.
Momentos bons.
Momentos maus.
Para recordar e mais tarde contar.
O Flo, em Junho, vai percorrer Portugal de mota por isso de vez em quando precisará de um tecto e um guia, de forma que,quem o quiser conhecer e guiar me avise que eu, em devido tempo, o avisarei.

Iruya

Vila magicamente situada entre infinitos desfiladeiros da Quebrada, e para lá se chegar, é necessário apanhar um colectivo em Humahuaca a cerca de 80km.
Essa distância é, contudo, percorrida em, no mínimo, três, longuissimas horas.
Porquê? inquirem vocês.
Porque se Deus, para quem acredita, ofereceu esta regiao ao Homem, em troca exigiu a sua alma, tal o número de vezes que se ouvem rezas durante incontáveis curvas a acariciar o vazio.
Ataques cardíacos e úlceras nervosas ocorrem aos milhoes, a mim e a outros, nestas estradas a 3000m de altitude.
Durante a viagem, o colectivo é preenchido por ameríndios super curiosos que se divertem ao ver as aterrorizadas caras de, auto-intitulados, corajosos habitantes de longínquas selvas urbanas.
A vila, vista de um mirador imediatamente acima parece uma favela do Rio, tal a profusao de casas, anarquicamente construídas com uma mistura de tijolo, pedras, canas e latao, serve de entreposto às comunidades que vivem pelos vales e montanhas em redor.
É inacreditável a sensaçao, indescritivel para simples mortais como eu, que o local transmite.
Para os endinheirados, em vez de irem a Fátima, Compostela ou Lourdes, ide antes a Iruya que, prometo, nao só vêm Deus como falam com ele.
Em San Isidro, a cerca de 4 horas de caminhada, durante a qual é necessário atravessar um rio várias vezes e, se o cuidado é pouco, ou a confiança exagerada, o mais provável é caminhar-se molhado, o que, dado o calor que se fazia sentir, nao soube nada mal, sente-se o peso da distância pois os seus serca de 400 habitantes nao possuiem electricidade e as noites sao passadas à luz da vela.
Na aldeia sente-se, também, a tristeza de pessoas que se sentem esquecidas e terao que se afastar, às vezes milhares de kms, de casa, em busca de oportunidades, que, num mundo perfeito,todos teriam mas neste, oportunidades, é um estranho conceito para um índio.
Por um dia, imagino a infância do meu pai numa aldeia dos trás-dos-montes das décadas de 50/60 enquanto descasco maças e pêssegos, alimento cavalos e burros, jogo à bola com crianças e graúdos, janto e ouço histórias de ancias à luz da vela.
Se imagino mal, peço desculpa mas ao menos, imagino-o feliz.

Tilcara

A 20 minutos de Purmamarca, é uma das maiores vilas da Quebrada mas ao mesmo tempo uma das mais desinteressantes.
O único interesse é a sua localizaçao junto a uma das fortalezas pré-incas mais estudadas e visitadas do país.
Nesta vila observa-se bem o estado, e para onde caminham, dos habitantes destas regioes, com a progressiva substituiçao dos seus hábitos e costumes pelos de uma civilizaçao que deles só quer "experiências exóticas" ao preço da chuva ou como mao-de-obra barata.
Basta "entrar" na regiao dos Andes para se sentir algo de mágico, intenso e divino e a cultura dos seus povos é extraordinariamente rica, mas a pobreza a que sao submetidos, obriga-os a ajoelhar-se, e adaptar-se, aos caprichosos desejos de arrogantes turistas endinheirados,sendo urgentemente necessário que estes povos encontrem um líder que os una, lhes dê confiança e orientaçao, de forma a voltarem a ser um povo grandioso e poderem entao, continuar a transmitir a sua fantástica cultura às futuras geraçoes.
Nesta vila, quando menos esperava, algo faz escorrer um liquído pelo meu rosto abaixo.
Sentado numa praça à espera do tempo, ouço um som de encantar em palavras familiares do fundo de uma das peñas de Tilcara.
Madredeus.
Apercebo-me que a distância custa e logo me leva a esse sítio que por momentos me transporta a casa.

Purmamarca

Pequena vila a mais de 2000 metros de altitude, que sobrevive à custa de turistas que percorrem o chamado circuito andino do noroeste argentino.
A cultura andina envolve-nos completamente nesta zona e dá uma mostra ou prepara quem viaja a seguir para essa experiência inolvidável que deve ser a Bolívia, que em pouco ou nada se alterou nas últimas décadas.
A praça central é rodeada por lojas e vendedores de rua que vendem recuerdos, peças artesanais e a mais variada roupa andina, desde ponchos a gorros e luvas, feita de la de llamas e seus parentes andinos.
A vila situa-se no sopé do Cerro de las 7 colores, assim chamado porque apresenta sete cores diferentes, desde cinzento, castanho ou laranja.
Aliás a Quebrada de Humahuaca é Património da Humanidade devido exactamente às incríveis cores das formaçoes rochosas da regiao.
E, deixem-me que vos diga meus amigos, que a sensaçao de tranquilidade que nos invade aquando do pôr-do-sol, momento em que as cores das montanhas e as cores do céu se fundem orgasmicamente, é sublime e sem paralelo.
A estrada desde Jujuy até à fronteira com a Bolívia situa-se entre 2000m e 4000m de altitude e percorre largos vales e desfiladeiros, sempre protegidos por coloridas montanhas, que mais nao fazem do que causar uma horrível sensaçao de nada sermos e, estes ambientes podem explicar a incrível timidez e humildade dos povos andinos pois há muito, isso interiorizaram.

Jujuy

A 100 km a norte de Salta, é capital da província mais a norte do país e a sua populaçao é maioritariamente indígena ou proveniente da Bolívia, a 300 km de distância.
Mercados de rua dominam as proximidades do terminal bus e à saída do autocarro, a multidao de pessoas, cores, sons e cheiros encandeiam um visitante menos preparado.
Relativamente pequena para capital da província, turistas sao quase zero e realmente a cidade nao tem muito para oferecer a nao ser como base, quer para visitas à muito aclamada Quebrada da Humahuaca, quer para quem pretende ir à Bolívia.
Ruas povoadas com enormes placares coloridos a indicar tudo o que uma cidade pode oferecer aos seus habitantes, parecendo-se, nesse aspecto, com uma cidade asiática.

Salta

Salta La Linda, é uma cidade do noroeste argentino, arquitectonicamente neocolonialista, penso eu de que, bonita e charmosa.
Situada num enorme vale, rodeada de montanhas, visita-se bem num dia mas convida a uma maior permanência, tal o prazer de people watching,durante uma sessao de empanadas,uma especíe de mini empadas (uma das especialidades gastronómicas argentinas), que uma das várias esplanadas espalhadas pela cidade proporciona.
Possui uma Igreja, com uma cor entre vermelho sangue e cor de vinho, estranhamente apelativa entre quarteiroes de casas brancas, que, curiosamente, possui no seu interior três cadeiras de baloiço portuguesas do séc. XVI, que eu nao pude observar por até as igrejas e catedrais partilharem do espasmo geral que é a siesta. Isto é, estava encerrada.
Quem visita as cidades do noroeste argentino, entre as 13h e as 17h, limita-se a admirar as centenas de miúdas nos seus super reduzidos trajes escolares.
E depois admiram-se do insucesso escolar por estas bandas....
A província, da qual Salta é sua capital,proporciona fantásticas paisagens de montanhas e vales, contudo, quem tem medo de estradas e precipícios está desde logo impossibilitado de se maravilhar pois só imaginar como será estar sentado no primeiro andar do autocarro, por aqui guiados por kamikazes, numa qualquer curva numa qualquer estrada de uma qualquer montanha de 2000/3000 metros de altura, causa-me logo um ataque cardíaco.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Momento de tristeza

E agora no dia 16 de Abril quando a escrita do blog desenvolvia-se desenfreadamente, se bem que mal, o pior aconteceu.
Em Salta, roubaram a máquina do Flo que continha todas as fotografias tiradas durante 6 semanas e meia de viagem.
Em vez do filme que proporcionou várias noites calientes a várias pessoas, este (mesmo se com semana a menos)proporcionou-nos várias horas de angústia e tristeza.
Primeiro não tinha tempo para o blog, depois não tinha paciência e agora que as duas iam aumentando eis que não poderei mostrar a maravilhosa experîencia que este país nos proporcionou/a/ará.
Mas, a tristeza deve-se principalmente porque os nossos descendentes já não poderão ver os pais, sujos,barbudos e cabeludos em poses deficientes pela Argentina fora e então em vez de ficarem ao pé de nós vão querer comprovar o que os mentirosos dos pais dizem que viram e viveram.
Em busca de uma camâra nova então ando eu pois o fantástico mundo da Nova Zelândia está aí ao pé.

Cafayate

Linda vila rodeada por enormes terrenos de vinhas.
À noite a primeira parrilla, carne assada na brasa, durante a primeira peña, música(folclore argentino) e/ou dança tradicional(típicas dos gaúchos, rancheiros argentinos) ao vivo.
Esta região da Argentina não só proporciona fantásticas paisagens como culturalmente é muito mais rica que as outras províncias visitadas, é mais barata, as distâncias percorridas são menores e tem menos turistas.
então porque são em menor número os turistas e viajantes?
Porque no resto do país a população é maioritariamente de descendência europeia, branca, logo os investimentos em infra-estruturas e marketing são maiores, logo
mais dinheiro ganham logo mais dinheiro investem.....
A eterna ladaínha:
Esvazia-se a mesa dos mais pobres para encher-se as garagens dos mais ricos.
Nas grandes cidades recomendam-se o uso de hostels de forma a manter-se o contacto com o mundo global mas nas aldeias e vilas nada melhor do que pernoitar em casas de família, habitações simples com quartos adaptados para mochileiros, onde se pode observar e conviver com os habitantes locais, que nos fazem sentir em casa.
A cerca de 6 km da vila entra-se noutro mundo, um de montes e rios que serpenteiam-se entre colinas, atrás de colinas atrás de colinas.
Tuco Ramirez, nome pelo qual exijo ser chamado nestas paragens, adequa-se perfeitamente ao momento, enquanto percorro as margens do rio e imagino centenas de apaches no alto das colinas prontos para me tirar o escalpe.
Não sou mau porque mato em legítima defesa mas também não sou bom porque desfiro golpes com lasciva maldade, logo deverei ser feio porque, tal como uma criança, faço o que não devia.

Tafí del Valle

Vila situada num enorme vale, onde lindos dias de sol e frios dias de nevoeiro vão alternando entre si as horas do dia,no noroeste argentino onde a população é maioritariamente descendente de ameríndios e imigrantes bolivianos.
De baixa estatura, bem marcados pelos anos e séculos de exposição solar e cabelo bem escuro, não chamam a atenção pela sua fisionomia mas alguns, centenas de milhares, ainda persistem com o modo de vida dos seus antepassados. Uma vida tranquila, isolados dos aglomerados populacionais, perdidos em vales, montanhas, desertos,desfiladeiros.
Forma de vida que os europeus ansiosamente tentaram aniquilar.
Relativamente perto, escondido por montes, existe um vale de difícil acesso onde pastam cavalos, vacas, ovelhas, cabras curiosas e até horríveis perus.
Marcado pelo forte verde da vegetação rasteira e ladeado por montanhas, Aveiro caberia lá, apenas 14 pessoas vivem em minúsculas casas de pedras.
Ao entardecer um vento excessivamento frio trouxe nevoeiro cerrado.
Uma noite impossivelmente linda.
Ao amanhecer, um vento surpreendentemente quente, tranquilidade, sentado numa rocha sem nada para fazer a não ser ver o sol surgir sob as montanhas e iluminar, lentamente, o vale.
Um dia diferente a celebração dos meus 27 anos.

San Augustin de Valle Fertil

Situada num vale rico em produção agrícola é uma vila de cerca de 7 mil habitantes a 6 horas a norte de Mendonza.
Ambiente: ver secção Ruta 40.
Funciona como base de acesso aos parques naturais Ischigualasto, ou Valle de la Luna, e Talampaya.
Se as paisagens dentro dos parques variam entre desertos, formações rochosas que exigem uma fértil imaginação tal as suas formas relembram tudo e mais alguma coisa, desfiladeiros, colinas e montes de diversas cores ocasionadas por diferentes camadas de sedimentos de diferentes eras terrestres, ou seja, tudo capaz de provocar espasmo, o facto de praticamente só os poder visitar com excursões retira-lhes toda o encanto.
Fora o facto de existir um autêntico monopólio no acesso aos dois parques, separados por cerca de 100 km, que obriga a um elevado esforço económico.
O que se perde numas àreas obriga depois a evitar,preterir, outras.
Um dos parques é recomendado como uma das 20 coisas a fazer na Argentina por um fantástico guia de viagem... o que ja levou os autores da viagem a evitar tudo o que guias recomendem.
Contudo, ambos os parques podem ser visitados em noites de lua cheia o que, permitind o eliminar desde logo os inoportunos pedidos para tirar fotos, deve ser uma experiência fora deste mundo e, talvez, merecedora de qualquer dispêndio de gorget.

Mendonza

A capital da província argentina do vinho.
Situada numa planície, com os Andes como grandiosos protectores mesmo em frente, salvé perspectiva, é uma das mais bonitas cidades argentinas com a sua àrea urbana a possuir mais seres que Lisboa.
Completamente destruída por um gigantesco terramoto no final do séc. XIX, foi reconstruída a pensar numa possível repetição da história.
Ruas largas percorridas por àrvores, plantadas em ambos os lados da estrada para proteger os seus habitantes dos quentes raios solares do Verão, que juntamente com pequenos cursos de àgua, existentes pela cidade fora, funcionam como um perfeito sistema de arrefecimento natural.
Numerosos parques para passear,relaxar,namorar,ler,correr,observar...
Cidade com um nível de vida superior ao da média argentina, fomentada pela indústria do vinho, do turismo, pois funciona como base de acesso aos Andes e à maior montanha do planeta,caso os aglomerados montanhosos dos Himalayas não existissem, Aconcagua, e também pela agricultura pois vários frutos e vegetais encontraram nesta zona um óptimo local de reprodução.
De salientar:
pelos vistos todos os hostels da cidade possuiem uma piscina nas suas traseiras.

Parque Nacional Lanin

Adjacente ao Parque Nahuel Huapi, é unicamente neste parque que sobrevive uma àrvore que já existia não só ainda os dinossauros não tinham surgido como até ainda o Sr. Pinto da Costa não era presidente daquilo ;).
A Auracaria, cujo fruto, uma espécie de pinhão gigante, alimentou durante séculos as comunidades indígenas da região.
Desde 2000, que uma comunidade indígena que aqui vive, os Mapuche, trabalha com as autoridades para ambas as partes puderem usufruir, e preservar, este ambiente milenar.
Aliàs, as comunidades indígenas da região da cordilheira dos Andes estão a tentar recuperar as suas antigas tradições, baseadas num respeito e veneração da PachaMama.
A paisagem do parque é dominada pelo Vulcão Lanin, com mais de 3000 metros, que com o seu pico nevado transporta-nos para o Japão e o seu Monte Fuji.
Lagos e florestas ocupam territorialmente o parque e, em início de Outono, com as raras casas separadas por centenas de metros ou kilómetros, o ambiente que se respira não podia ser mais tranquilizante e propício a liberdades infantis, mergulhos sem pudor para alegria das raparigas locais( as pertencentes às diversas espécies de passáros que nos assobiam sem parar já que as da nossa espécie são mais raras e mais tímidas ou então mais exigentes), e a uma fértil imaginação que o silêncio e isolamento da noite incentiva e nos leva mais cedo para o aconchego e suposta segurança da tenda.
Sem acesso a horas, 3 momentos regem os dias:
nascer do sol obriga-nos a levantar, a meio do dia a fome obriga-nos a comer e o por do sol obriga-nos a casa regressar.
O resto do dia é passado com a constante luta, infrutífera, contra a letargia e preguiça, deitado nas margens do lago a ver passar o tempo e a vida.
Após um dia tão atarefado, um mergulho nas geladas àguas do lago refresca-nos e relembra-nos que já não te lavas há dias mas sujidade ou impureza são sensações alheias ao nosso mundo.

terça-feira, 15 de abril de 2008

S. Martin de Los Andes

Ao fim de um mês finalmente uma cidade que obriga a uma estadia de mais de um dia só pelo seu charme e beleza.
Permitam-me mas agora vou eu comprar uma pala, que tape de preferência o meu olho de assemelhança stalloniana.
Situada num pequeno vale, assemelha-se a um glaciar que caminha tranquilamente em direcçao ao lago.
Diversos parques, ruas com casas bonitas, pessoas simpáticas,raparigas apelativas e até rapazes bonitos (há gostos para tudo).
Ambiente confortável e tranquilizante de uma cidade com aroma a Outono, que provocou pela primeira vez um forte desejo de retorno a casa e às comidas e carinhos da mama ( lá vem uma lágrima no canto do olho, lá vem uma lágrima... ;)).

Ruta de Los 7 Lagos

Considerada uma das 20 coisas a fazer na Argentina pelo meu maravilhoso guia de viagem, è coisa a evitar se nao nos levasse a S. Martin de Los Andes.
Lagos cristalinos é coisa que prometem e sim é verdade mas também verdade é a existência de uma floresta maciça que impede um bom visionamento ou até um mergulho nas suas àguas e também a existência de uma estrada em péssimas condiçoes que impede a que poderia ser uma agradavél conduçao por bosques cerrados.

Bariloche

Cidade "suiça" argentina devido à sua localizaçao na margem de lagos e florestas e rodeada por montanhas.
Outra cidade propícia a turistas europeus/americanos/asiáticos cegos de um olho tal a incapacidade, ou extrema sagacidade dos argentinos em lhes venderem uma pala, de realmente conhecerem, e apreenderem, o ambiente em que estao.
Carteiras àvidas de dispensarem peso aproveitando a perda de valor da moeda local, roupas mais propícias a profissionais de montanha do que a ocasionais caminhadas por florestas ou montanhas, sempre com guia claro, máquinas SLR XPTO a registrarem avidamente a mais vulgar das moscas a pousar na mais vulgar das pedras só para mais tarde poderem afirmar e comprovar que sim estiveram lá e sim era extraordinário e sim recomendam mas, no fundo, estar e olhar nao é o mesmo que ver.
Por isso é que cada vez mais pessoas viajam mas cada vez mais o mundo está na mesma.
Divagaçoes à parte, a cidade está localizada num dos extremos da chamada regiao dos lagos, por serem incontáveis estes elementos.
Àgua de cor turquesa chamando inocentes banhistas até que a sua baixa temperatura e profundidade, os desperta, tragicamente, para a realidade.
Em quantidade proporcional aos lagos, os parques de campismo proporcionam fantásticos dias de tranquilidade e mergulhos, a velocidades nunca vistas, nos lagos, antecedem maravilhosos pequenos almoços sob um sol ainda ensonado.
À saída de Bariloche situa-se o maior e mais antigo parque nacional argentino, Nahuel Huapi, que proporciona incontáveis momentos de prazer para amantes, precoces ou nao, da senhora Natureza, por estas bandas conhecida por PachaMama.
Uma caminhada de 18 kms até 2000 metros de altitude levou-me a inimagináveis vistas da regiao mas que feias se tornaram quando chegou a altura da noite dizer olá e trazer consigo milhoes e milhoes de estrelas e dezenas delas cadentes para nos fazer companhia.

Ruta 40

Centenas, milhares?, de kms de paisagem patagónica percorrida em estrada de gravilha, paralela aos Andes.
Uns cantam-lhe a liberdade e tempos idos, eu temo-lhe os bilioes de piedras malas e conduçao desenfreada dos condutores.
Pouco a pouco vai sendo asfaltada de forma a tornar-se uma via a ter em conta e em 13 horas de viagem apenas duas dezenas de carros foram efusivamente saudados.
Perdida no meio do nada, uma aldeia com um aspecto curioso:
uma oficina de reparaçoes intitulada El Português.
Por apenas ter reparado na oficina jà a bordo do bus, nao poderei dizer se o nome se refere à nacionalidade do dono mas que um português tenha escolhido uma aldeia com uma dezena de casas no meio do nada no sul da Argentina é de surpreender pela total falta de possibilidades, visíveis, da eterna necessidade de socializaçao característica do nosso povo.
De vez em quando passa-se por vilas nao indicadas nos famosos guias de viagem que a cultura anglo-saxónica avidamente consome e que eu agora questiono porquê.
Muda-se de autocarro, hostel, cidade, regiao e avista-se sempre alguma cara conhecida, daqui, dali, hmmm de onde será?
Rio Mayo, nao indicada nos tais guias, no meio do nada, levou-me à custa de um problema mecânico do bus, a retroceder no tempo, até à minha infância no meio de nada, mas desta vez em Portugal.
Pequena, nao hà bares, discotecas, muito menos concertos mas existe aquela pacatez de quem nao sabe que nada sabe e se sabe, sabe sobre vidas alheias mas, de vez em quando, uma vida assim nao faz mal a ninguém.
Maratonas de jogos de berlinde em ruas e pátios nao pavimentados, seguidas de horas e horas de "jogar à bola" em terrenos a necessitar de tanques todo terreno, seguido de horas e horas de convívio nocturno na praça central onde a música é servida por essas inimitáveis, e pensava eu desaparecidas, orquestras de grilos e cigarras...

El chalten

Pequena vila criada em 1988 para impedir o Chile de absorver território argentino, situada a horas de viagem da mais próxima vila ou cidade.
Actualmente, sobrevive do turismo baseado em alpinismo e trekking, pois está situada na base de uma das montanhas, também situada no Parque Pacional Los Glaciares, mais difíceis de escalar do mundo, Fritz Roy, uma parede vertical de rocha entre glaciares que originam vários lagos azul turquesa e incontáveis rios e riachos.
Os percursos de trekking sao relativamente acessíveis e permitem vistas fabulosas, fabulosas, de vales, glaciares, florestas, montanhas, lagos e rios.
Dentro do parque é possível ainda, beber àgua directamente de rios e riachos, o que sabe maravilhosamente bem, quer durante as caminhadas, quer como uma forma radical de despertar os sentidos, tal sao as baixas temperaturas das suas àguas, para observar e apreender o ambiente que nos rodeia durante o amanhecer, e entardecer, tantos sao os elementos e tantas sao as cores.
Ùnico senao:
ataque cerrado de pequenos ratos à nossa tenda, medo infligido foi de grau 11 na escala de Richter, durante uma interminável noite num acampamento com posiçao privilegiada para observar outro pico, Cerro Torre, e seus irmaos.

El Calafate

Outra cidade sem piada, que existe só e totalmente para turistas, situada numa das margens do gigantesco lago Argentino, o 3ºmaior das Américas.
Principal razao de visita:
Parque Nacional Los Glaciares.
Numerosos glaciares existentes na àrea, sendo o de mais acessível acesso também o mais famoso, Glaciar Perito Moreno.
14 km de gelo descem montanha abaixo até encontrarem o seu inimigo, o tal lago.
Com uma altura de 50m, é um dos poucos glaciares que ainda avançam e a queda dos massivos blocos de gelo no lago, provocam extraordinários estrondos que nos transportam para um cenário de guerra tal é assemelhança com o som de canhoes, presumo eu.
O parque é qualquer coisa de extraordinário visto de longe, com uma cadeia de montanhas nevadas e glaciares a descerem-lhes as encostas.
A estrada, em boas condiçoes para turista ver, é perfeita para ocasionais tentativas de suicídio de depressivos coelhos em divagaçoes nocturnas, tal foi a quantidade de vezes que o carro, alugado, lhes frustrou as intençoes.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Puerto Natales

Chuva, chuva e mais chuva.
Chuva sem parar impediu-nos de percorrer o Parque Nacional Torres del Paine, no Chile, um dos mais extraordinários do planeta.
As cidades chilenas parecem mais bonitas do que as suas congêneres argentinas e provocam maior desejo de as conhecer nos visitantes ocasionais.

Ushuaia

Cidade mais a sul do planeta, embora do outro lado do canal Beagle, outra vez em território chileno, exista uma base naval apoiada por uma pequena comunidade, Puerto Williams, que devido ao exorbitante custo de uma passagem, ainda mais fim de mundo seja, para lá da geograficamente.
Ushuaia, embora seja agradável e estrategicamente localizada entre o fim dos Andes e o canal Beagle, sobrevive à custa da indústria madeireira, que encontrou um paraíso por aquelas bandas e também â custa do fantástico jogo de marketing por si realizado, porque o tal fim de mundo nao se sente em lado nenhum, mesmo afastada 11 horas de viagem do continente, mesmo situada em frente ao canal Beagle e 1000 km acima da Antártida, e mesmo isolada pelas montanhas que sinalizam o fim dos Andes.
Em 1977 era habitada por 2000 pessoas sendo que actualmente 70.000 pessoas vao para casa ao fim do dia.
Demasiados habitantes e excesso de turistas tiram-lhe todo o encanto.
Imagino-a em 1977 e imagino o que hoje nao se sente, pois fin del mundo, end of the world, frases estampadas em todo o lado menos onde realmente deveria estar.
Relativamente perto situa-se o parque nacional da Terra do Fogo, onde termina a RN-3, estrada que percorre, desde Buenos Aires, 3000 km até à Baía Lapataia, sempre paralela à costa, mesmo nao a vendo 99% do tempo.
Para entrar no parque lá pagamos 30 pesos, contra os 7 pagos por um casal argentino mesmo à minha frente e agora questionam vocês, e muito bem, porque nao me indico eu como argentino, já que pareço mais argentino do que eles pròprios?
1) Por tendências marcadamente nacionalistas (minhas, nao deles)
2)Porque o meu belo camarada de viagens tem toda a aparência de origem alienigena por estas bandas.
No parque presenciei um fantástico e há muito desejado momento, desde que, quando pequeno, um pica-pau me apareceu na televisao com o seu riso característico impossível de traduzir para palavras.
No parque presenciei também à eterna estupidez humana exemplificada na gigantesca legiao de coelhos lá introduzidos por motivos comerciais e que, devido à sua faceta ninfomaniaca, se encontram agora em inicio de tentativa genocida.
Curioso o facto de se ver mais raposas nos subúrbios habitados de Londres do que neste parque natural, sendo que, sao um dos animais em maior número na Terra do Fogo.

Rio Gallegos

Última cidade continental argentina antes de atravessarmos o Estreito de Magalhaes em direcçao à Tierra del Fuego.
Cidade a evitar se o monopólio das viagens entre o continente e Ushuaia nao existisse e lá passamos entao duas noites na cidade mais desinteressante do mundo.
Quarteiroes e mais quarteiroes de casas feias, ruas sujas, carros velhos e pessoas tristes.
Como vários camioes da Halliburton passeiam-se pela cidade, presumo que a ùnica razao de existência da cidade seja esse ouro negro que a Argentina pelos vistos tem tanto, mas que gasolina quem tem tanto sao os outros.
Entre Rio Gallegos e Ushuaia, temos que passar diversas vezes pelos postos fronteiriços da Argentina e do Chile o que, além de ser uma actividade deveras aborrecida, é também, um exercicio de controlo completamente despropositado, já que entre esses postos nada existe, logo a divisao da Terra do Fogo pelos dois países é uma aberraçao do ponto de vista de definiçao de fronteiras.
A estrada chilena da Terra do Fogo, embora acompanhada por lindas paisagens, é de gravilha e várias vezes me senti a conduzir um carro rally em constante derrapanço, pois como nada existe e a estrada só serve para encaminhar as pessoas para Ushuaia, o Chile faz o favor de nao desperdiçar dinheiro a pavimenta-la.
O ferry que atravessa o Estreito de Magalhaes demora cerca de 15m a completar a travessia mas proporciona uma fantástica experiência aos passageiros, tendo em conta as dezenas de vezes em que nos fomos colocados entre a vida e a morte pelo terrível vento que percorre esta passagem marítima.
Magalhaes e seus marinheiros tinham mais porçao de loucura do que coragem, quando decidiram atravessa-lo nos seus barcos de "borracha".

Puerto San Julian

Aqui chegamos por volta das 04h da manha, e com mais de uma hora de atraso, o que è de louvar pois nos permitiu mais uma hora de sono, mesmo se passada num bus.
Motivo de interesse:
.local onde Magalhaes desembarcou pela primeira vez na Patagónia e tal facto é assinalado pela existência de uma réplica, de tamanho real, da nau Victoria.
É de assinalar a extraordinária coragem, ou loucura, dos marinheiros daquelas épocas, ao atravessarem oceanos em barcos ridiculamente pequenos e de aparência ridiculamente frágil.
. existência da segunda maior colónia de pinguins da Patagónia, com cerca de 150 mil animais.
Embora o guia indicasse como hora de partida as 08h da manha, o capitao só chegou por volta das 10h e só partimos por volta das 12h ( pois só partia com número mínimo de 4 exemplares humanos).
Là fomos entao, num zodiac, pelo mar bravio fora (exagero), sempre acompanhados por golfinhos em preparaçao para os Jogos Olimpicos ( deles, nao nossos).
Pinguins?
Super engraçados, metade a olhar curiosamente para o barco, metade a olhar curiosamente para nós, animais humanos.
Deixaram-nos aproximar até cerca de 1m, quando começaram entao a fugir no seu estilo desengonçado que provoca um desejo gigantesco de riso, mesmo nos seus predadores.
A cidade em si?
Nada de mais, vamos entao para o próximo destino.

Península Valdés

Após 20h de viagem lá chegamos a Puerto Madryn, onde apanhamos rapidamente outro bus em direcçao a Puerto Piramides, a cerca de 100 km de distância.
Pequena vila situada numa baía na Penìnsula Valdés, Património da Humanidade desde 1999 (devido às suas riquissimas reservas marinhas), è o ponto de partida para deambulaçoes terrestres e ,principalmente, maritimas pelas redondezas.
Como chegamos na època errada, de riqueza nao vimos nada (se exceptuarmos uma colónia de elefantes marinhos, pacientemente à espera, em rochedos, que a maré alta chegasse para entao regressarem ao meio onde se sentem felizes).
Dualidade:
um deserto terrestre convive lado a lado com um paraiso marinho.
Em 24 horas fomos atacados por um calor alentejano durante o dia, uma chuva tropical durante a noite e um frio polar no novo dia.
Puerto Pirâmides, uma vila pequena que sobrevive à custa do turismo, situa-se numa pequena baía e embora as suas àguas sejam demasiado frias para um exigente mediterrânico, um apaixonado por desportos aquáticos sentir-se-á como um peixe na âgua.
De realçar que na Argentina, os nao argentinos chegam a pagar 4 ou 5 vezes mais por uma entrada num dos seus vários e imperdíveis parques nacionais.

Patagónia

O esperado.
Espaços e espaços eternos, aqui e ali placas indicando estâncias perdidas, aqui e ali ovelhas, vacas, cavalos e (muito) mais a sul até primos de llamas, primas de avestruzes, pássaros desconhecidos (sou ignorante perdon) e até uma doninha fugiu apavorada mal avistou o animal de metal em que eu viajava.
Silêncio intimidante e destruidor de mentes sanas.
Noites mágicas onde desconhecidas estrelas se decidem apresentar aos ocasionais viajantes.
De Buenos Aires a Ushuaia (no extremo sul do continente) sao cerca de 3000 km e 50 horas de viagem e, nunca variando, as paisagens percorridas nas últimas horas de bus sao tao fascinantes como as que surgem interruptamente nas primeiras.
Atençao:
Perigo de aborrecimento de morte.
Dizem que viajantes nao argentinos morrem de tedio.